Patético

Nada mais fora de lugar do que uma atitude emocional exagerada perante a vida.

Não é por acaso que o cinema ou a televisão dão um espaço cada vez mais reduzido para os melodramas. E mesmo dentro dessa estrutura narrativa, introduz-se um elemento de moderação ao transbordamento emocional, esse papel geralmente cabe a um personagem arquetípico, um ancião, um médico, um professor, que servem como porta-voz da ordem, da resignação e da tradição.

A desconfiança com o derramamento emocional tem um fundo histórico, na medida em que nossas instituições e mentalidade são fortemente influenciadas pela tradição racionalista, iluminista e positivista. Imaginamos a humanidade a partir de um tipo ideal conduzido pela capacidade de análise, juízo racional e apelo à ordem. Mesmo que a realidade constantemente refute esse ideal arquetípico e nosso cotidiano seja dominado por exemplos de indivíduos dominados pelos excessos emocionais, tendemos a valorizar a atitude fria e distanciada da razão à mobilização calorosa da agência das emoções.

Cartaz do melodrama, Stella Dallas (1931) com os dizeres “Quem disse que eu não sou digna de ser uma mãe!”.

A atitude negativa em torno das emoções, longe de ser uma norma, é algo historicamente recente. De maneira breve vamos procurar resgatar algumas diferentes formas de lidar com essa parte fundamental da natureza humana.

Na antiguidade grega, o afeto, a paixão, o sofrimento – nomeado como pathos – recebeu atenção especial dos poetas e filósofos.

Safo, poetisa da ilha de Lesbos (séc. VII a.C), movida pela paixão buscou auxílio da deusa Afrodite, no canto Ode à Afrodite. Essa obra é uma das poucas poesias dessa autora que chegaram à contemporaneidade de maneira (quase) completa, e revela em sua composição muito dos elementos culturais presentes na cultura grega desse período (para uma análise introdutória recomendo a monografia: A Tradição Sáfica: Uma Análise da Ode À Afrodite, Yasmin Gabrielly de Moura Fontes Dantas, UFRN, 2023).

Por sua importância e beleza, segue a tradução da poesia:

Ode à Afrodite

De flóreo manto furta-cor, ó imortal Afrodite,

filha de Zeus, tecelã de ardis, suplico-te:

não me domes com angústias e náuseas,

veneranda, o coração,

mas para cá vem, se já outrora —

a minha voz ouvindo de longe — me

atendeste, e de teu pai deixando a casa

áurea carruagem

atrelando vieste. E belos te conduziram

velozes pardais em torno da terra negra —

rápidas asas turbilhonando céu abaixo e

pelo meio do éter.

De pronto chegaram. E tu, ó venturosa,

sorrindo em tua imortal face,

indagaste por que de novo sofro e por que

de novo te invoco,

e o que mais quero que me aconteça em meu

desvairado coração: “Quem de novo devo

[persuadir

(?) ao teu amor? Quem, ó

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Safo, te maltrata?

Pois se ela foge, logo perseguirá;

e se presentes não aceita, em troca os dará;

e se não ama, logo amará,

mesmo que não queira”.

Vem até mim também agora, e liberta-me dos

duros pesares, e tudo o que cumprir meu

coração deseja, cumpre; e, tu mesma,

sê minha aliada de lutas.

Estudiosos veem nesse evento o pathos como caminho para a ascese mística (UBALDI, Pietro. Ascese Mística. Editora Fundapu, 1993). Longe do derramento emocional ser questionável, ridículo ou menor. É do sofrimento amoroso que a poetisa abre caminho para a interlocução com a divindade, deixando a esfera da realidade e alcançando um contato direto com o sagrado. Aqui a emoção e a religiosidade se coadunam em direção ao sublime.

Séculos mais tarde, Aristóteles, estudando as possibilidades do discurso na obra Retórica (séc. IV), identificou três maneiras distintas de tocar uma audiência:

Através da apresentação de provas lógicas, promovendo uma atitude racional perante o tema em disputa, encontrando no logos uma forma de dissipação das desconfianças.

Buscando a confiança da audiência através de uma atitude voltada ao bem comum, mobilizar a própria confiança dos cidadãos em torno das instituições da comunidade política apelando ao ethos– durante a Guerra do Peloponeso, quando Atenas e Esparta disputaram a hegemonia sobre a Grécia, Péricles, orador de destaque e líder da Eclésia, conseguiu demover seus concidadãos ao incluir em seu discurso político o ethos das suas propostas ao próprio ethos da cidade, a democracia, a liberdade e a coragem (em História da Guerra do Peloponeso, Tucídides).

Ou, sensibilizando a audiência a partir de um apelo emocional, o filósofo entende que “As paixões são as causas que introduzem mudanças em nossos juízos”(em Retórica, Aristóteles). Aqui a emoção tem lugar de destaque no encontro e discussão da pólis. É possível falar ao coração e dessa maneira transformar os caminhos da decisão política.

No teatro grego, o patético (ação que comove, que cria um grande sentimento de piedade, que causa compaixão) é um caminho de identificação do público com as ações perturbadoras presenciadas em cena. Ao ser tocado pela emoção, o público se envolve ativamente na ação, permitindo à catarse coletiva (purgação das emoções) –o espectador participa/vivência o medo do destino em Édipo Rei, assiste o horror da violência de gênero e infanticídio em Medeia, sente os limites dos ciclos de vinganças e à necessidade de uma justiça coletiva em Oresteia. O teatro preocupava-se em educar a plateia por intermédio e em relação às emoções.

Édipo e a Esfinge (1864) – Gustave Moreau

O próximo salto que precisamos dar está na mudança substancial em relação às emoções assistida durante a modernidade. A partir do enquadre médico científico, o phatos, a intensa emoção, passou a ser diagnosticada e tratada pelos saberes médicos. (MENESES, Adélia Bezerra de. A paixão na literatura: do cântico dos cânticos e dos gregos à poesia contemporânea. Revista Literatura e Sociedade, n. 6. São Paulo: USP, 2002) Não mais um caminho para o sagrado. Não mais uma estratégia de contato com o concidadão no sentido de construção de soluções comuns. Muito menos uma forma de espiação dos males da convivência e das paixões humanas. A emoção passou a ser encarada como, patologia, ou seja, estudo do pathos como doença, como um desvio da condição saudável do indivíduo. Essa patologia deve ser identificada e tratada de maneira a trazer o portador desses sentimentos de volta à normalidade

Assim chegamos no entendimento atual. Patética, na concepção contemporânea, é uma atitude que comove devido ao seu caráter exagerado, desproporcionado, um desvio em relação às normas de convivência socialmente reconhecidas.

É interessante perceber que a ressignificação da palavra não significa necessariamente uma atitude social distanciada das influências apelativas das emoções e discursos manipulativos. Pelo contrário, o medo, os preconceitos, o delírio, o ódio, a raiva, são cultivados, divulgados e cuidadosamente distribuídos como plataforma de ação de políticos, empresas e instituições religiosas.

(Banco de imagens: Adobe Stock)

No século XXI as pessoas temem inimigos abstratos, mas ao mesmo tempo muito reais no imaginário coletivo. Esses inimigos aparecem através de conceitos, como “ideologia de gênero”, “globalismo”, “cultura woke”, etc. Os inimigos são materializados através de símbolos portadores de alto grau de identificação, como a mamadeira erótica, o imigrante devorador dos cachorros da vizinhança, o homem condenado ao celibato involuntário devido ao desprezo das mulheres feministas.

Nenhuma das atitudes exemplificadas acima é razoável se entendidas fora do seu contexto de transmissão cultural. Todas essas atitudes parecem exageradas e despropositadas. Os indivíduos que atuam e partilham desse imaginário cultural podem ser nomeados como patéticos, sem prejuízo na exatidão conceitual do termo. Ao mesmo tempo, essas pessoas patéticas cresceram em uma sociedade que sistematicamente procurou relegar às emoções a uma esfera inferior da sociabilidade humana. O entendimento patológico da psiquiatria, que visa a supressão das emoções através da medicalização, convive com a contraparte terapêutica, que entende que as emoções pelo menos precisam ser canalizadas, sublimadas, ou mesmo geridas de forma estratégica e adaptativa(!).

Enquanto os gregos antigos buscavam educar o cidadão a respeito da emoção a partir da própria experiência emocional, seja através do discurso mobilizador do phatos, presente na Retórica de Aristóteles, seja através de educação das sensações, que se resolvia na catarse teatral, nós, herdeiros da modernidade, guiados pelo paradigma técnico-científico, buscamos controlar, contornar, instrumentalizar um aspecto fundamental da nossa natureza.

Enquanto isso continuamos delirando com inimigos imaginários.

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