“É muito sabido já que um grupo de moços brasileiros pretendeu tirar o Brasil da pasmaceira artística em que vivia. […] Tinham de transportar a consciência nacional para o presente do universo. Muito bem. Mas onde estava a consciência nacional? […]” ANDRADE, Mario de. Oswald de Andrade. Revista do Brasil, n.105, São Paulo, set/1924
Mario de Andrade descobriu a consciência nacional em Minas Gerais. Mais precisamente em 1919, na cidade de Mariana, local onde passou uma temporada quando visitou o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens. Além da amizade com o poeta, a quem admirava, nessa viagem o escritor se aproximou do barroco mineiro, expressão artística que o tocou profundamente e seria objeto de reflexão, produção intelectual e referência para um mergulho profundo na cultura e sociedade brasileira.
Ao voltar para São Paulo, Mario de Andrade apresentou a palestra “A arte religiosa no Brasil, Minas Gerais” e durante a exposição afirmou: “Antônio Francisco Lisboa é o único artista brasileiro que eu considero genial, em toda a eficácia do termo” (ANDRADE, Mario de. Revista do Brasil, 1920). A atenção do escritor foi capturada pela originalidade estética e síntese de influências culturais diversas, expressas no trabalho do escultor.
Cabe ressaltar que, até aquele momento, o barroco mineiro, quando não ignorado, muitas vezes foi rechaçado por críticos que não aceitavam o desvio do cânone da arte tradicional e das suas preocupações com proporções e técnicas acadêmicas.
Em sua prática artística, Aleijadinho misturou referências da pintura clássica – que recebia através de brochuras, ilustrações e livros trazidos pelas caravanas comerciais – com influências da arte popular local, de expressão afro-indígena. No seu trabalho de esculpir figuras religiosas, Antônio Francisco Lisboa produzia uma expressão artística nova. Essa originalidade chamou a atenção do olhar de Mario de Andrade e abriu o caminho para o desenvolvimento da arte Modernista, então em gestação.

Sabemos do impacto da arte barroca na mente e imaginação de Mario de Andrade por sua produção intelectual, mas também por seu retorno à região, dessa vez dedicado exclusivamente a explorar e registrar toda a produção artística do local. Mesmo sem fontes históricas que comprovem, não tenho receio em sustentar a tese de que Mario de Andrade falou insistentemente das cidades e cultura mineira para os seus amigos modernistas, a ponto de anos depois os convencê-los a embarcar em uma expedição de “descoberta” da região, na “caravana modernista”, em 1924.
Durante a Semana Santa, Mario de Andrade e uma trupe de artistas embarcam em direção às terras mineiras, desejosos de se aproximar da cultura nacional e repensar a posição do Brasil no mundo. Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Blaise Cendrars, e outros, visitam São João del Rey, Tiradentes, Ouro Preto, Mariana, Congonhas do Campo e Sabará.
O esforço de exploração da cultura colonial buscava conciliar passado, presente e futuro. Como bem observa o historiador Roniere Menezes: “O barroco mineiro, antes de ser visto como algo aprisionado ao passado, abria-se ao presente, possibilitando o embaralhamento de noções artísticas convencionais. Essa produção, vista como detentora de linguagem diferencial, de timbre tropical, poderia contribuir para o desenvolvimento da arte nacional. Havia, no projeto, a intenção de que as criações modernas locais pudessem ser apreciadas no mundo todo como brasileiras e, ao mesmo tempo, como cosmopolitas.” (MENEZES, Roniere. Minas Gerais,modernidade e cosmopolitismo: Mário de Andrade, os mineiros e a reinvenção do Brasil, Ciência e Cultura, n.74)
A pesquisadora Marta R. Batista entende que o impacto dessa viagem foi forte e permanente nos artistas presentes na caravana: “Assim, na viagem a Minas, admiram as igrejas coloniais e o Aleijadinho, […] mas sobretudo observam as pequenas cidades, sua arquitetura e colorido, os usos e costumes da população, com reflexos imediatos e importantes nas obras que realizam. […] Mario de Andrade, em sua poesia, aproveita lendas e ritmos musicais. Compõe baladas brasileiras, que logo reintitula modas e toadas. No amplo exercício para abrasileirar-se, aproxima sua linguagem da expressão oral e desenvolve uma língua brasileira toda sua […]” (BATISTA, Marta R. Revista do Iphan, n.30, p.13, 2002).

Usando os termos de Mario de Andrade, os “moços brasileiros” aprenderam que para tirar o Brasil da “pasmaceira artística”, precisavam mergulhar profundamente na cultura brasileira e recolher nela os signos e sentidos que formam nossa originalidade.
As expedições em busca do Brasil se tornaram uma constante na vida do escritor a partir dos anos 20. Seja enfurnando-se no interior paulista para reconhecer a cultura caipira – o samba de Pirapora, as festas e procissões religiosas -, muitas vezes acompanhado pelo amigo antropólogo Claude Lévi-Strauss; seja pesquisando os terreiros, as músicas e a cultura do nordeste; ou explorando o interior do norte do país através de seus rios e aldeias, Mario de Andrade se tornou um viajante para descobrir e aprender a realidade nacional, no diário de viagem, “O Turista Aprendiz” (1976), relatou esse lento e consistente processo de “descoberta do Brasil”.
Os agitados e tensos anos 20/30 exigiam dos intelectuais brasileiros pensar o Brasil. Construir uma explicação para a nossa mal consolidada sociedade. Entender os conflitos e tensões presentes na realidade nacional. Para mim é bastante claro que a discussão modernista foi um fator determinante na produção intelectual de uma geração que posteriormente seria reconhecida como a dos “intérpretes do Brasil”.
Sérgio Buarque de Holanda com a escrita de Raízes do Brasil (1936), Gilberto Freyre com Casa Grande e Senzala (1933), Caio Prado Jr. com a Evolução Política do Brasil (1933), colocaram em questão a herança portuguesa e o impacto dos processos de colonização na formação da sociabilidade, economia, política e cultura. O material que os modernistas lapidavam em seus ateliês, se tornava objeto de pesquisa e profunda análise social.
Mesmo quando críticos de história da arte na contemporaneidade questionam as percepções nacionalistas elaboradas por Mario de Andrade em seus estudos sobre o barroco, apontando uma dimensão global dessa produção artística, que fazia do barroco muito mais o resultado dos encontros das iniciativas imperialistas, do que ações regionalizadas – “Mantidos dentro as fronteiras geográficas e ideológicas, suas específicas manifestações no Brasil nunca serão plenamente compreendidas, pois elas fazem parte de uma teia muito mais ampla, num intercâmbio incessante de inflexões e invenções.” (COLI, Jorge. Ponto de Fuga, São Paulo, Perspectiva. 2004, p.48) – é evidente que Mario de Andrade, seguindo o espírito do seu tempo, buscava materiais que o permitissem inventar uma cultura nacional ainda não plenamente elaborada. E para isso recorria às fontes disponíveis na cultura popular nacional.
Outra tarefa fundamental realizada no período está na dimensão da conservação e proteção do patrimônio cultural. Mario de Andrade, junto a outros intelectuais do período, percebia a urgência de criação de políticas públicas voltadas para essa área. Ainda no início dos anos 20, o escritor denunciava o perigo que as obras de arte em Minas Gerais sofriam, tanto dos efeitos do tempo, quanto dos saques de pessoas mal intencionadas. Por sua atuação na defesa do patrimônio artístico e cultural, em 1936 foi convidado pelo ministro Gustavo Capanema a escrever o projeto do que seria o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A partir de 1937, essa instituição teria a missão de preservar e gerir a multiplicidade das formas com que o patrimônio histórico e cultural nacional se manifesta.

Ilustração da Igreja de São Francisco de Assis em São João del-Rei, Mario de Andrade (1924)
Considerando a missão de educação patrimonial IPHAN, sou testemunha que essa dimensão encontra-se plenamente incorporada às “Cidades Históricas” de Minas Gerais. Refiz a “caravana modernista” agora na metade do ano 2025, e durante a semana que passei na região, não fiquei um dia sem me surpreender com o nível de identificação e reconhecimento do patrimônio histórico demonstrado pela população dessas cidades. Em alguns momentos, pude perceber que qualquer pessoa podia ser um guia turístico. Vendedores ambulantes, garçons, pessoal da segurança dos museus, todos colaboravam no sentido de esclarecer, apresentar e discutir o legado da cultura produzida na região. Percebi muito forte o orgulho e a defesa que o povo mineiro faz do seu patrimônio histórico.
Outro ponto de destaque é a quantidade significativa de trabalhadores envolvidos com cultura nessa região. Sem exagero, durante os dias que passei nas cidades históricas vi centenas de pessoas dedicadas direta e indiretamente com trabalhos em torno dos pontos turísticos dessas cidades. Também notei que a grande maioria das oportunidades de trabalho que surgiam nesses lugares tinham condições precárias, os trabalhadores em sua maioria pareciam estar na informalidade e alguns me relataram uma relação débil com o local onde estavam (por exemplo, os guias das igrejas recebem “permissão” para apresentar o lugar, mas são “remunerados” pelos visitantes).
Fiz uma breve pesquisa sobre artigos acadêmicos que abordassem essa realidade, mas não encontrei nenhum trabalho sobre essa dimensão. Acredito ser urgente quantificar e pensar em estratégias de incorporação desses trabalhadores nas relações formais de trabalho.
Foi interessante perceber que passados cem anos da caravana modernista, Minas Gerais continua sua vocação de inspirar e produzir reflexões sobre o momento da cultura nacional. Tive oportunidade de ver o trabalho de alguns artistas mineiros contemporâneos e sai com a percepção de uma cultura rica, embricada em uma poderosa ancestralidade, mas também portadora do futuro. Ao mesmo tempo que Minas luta para se manter viável para o seu povo e natureza, o embate de forças contraditórias molda os caminhos de uma sociedade clivada por contradições, florestas e minérios disputam espaços, passado e presente se coadunam em uma marcha ao futuro, Minas se constrói e se reconstrói com as demandas do seu tempo.
[…]Que luta pavorosa entre floresta e casas…
Todas as idades humanas
Macaqueadas por arquiteturas históricas
Torres torreões torrinhas e tolices
Brigaram em nome da?
Os mineiros secundam em coro:
– Em nome da civilização!
Minas progride […]
Mario de Andrade, Noturno de Belo Horizonte. Poesias Completas, 1955.