“Pesquisa, salvamento, exaltação da memória coletiva não mais nos acontecimentos mas ao longo do tempo, busca dessa memória menos nos textos do que nas palavras, nas imagens, nos gestos, nos ritos e nas festas; é uma conversão do olhar histórico. Conversão partilhada pelo grande público, obcecado pelo medo de uma perda de memória, de uma amnésia coletiva (…)”. Jacques Le Goff, História e Memória.
Em 1988, o historiador francês Jacques Le Goff publicou o livro História e Memória. A obra se tornaria um clássico da historiografia por sua abordagem profunda em temas metodológicos e discussões proveitosas sobre o papel da história como forma de narrativa pública, política e social.
Entre as diversas abordagens teóricas presentes no texto, interessa-nos particularmente a reflexão que o autor propõe sobre o lugar da memória e os debates em torno desse lugar.
Para Le Goff, a marca contemporânea em torno da memória está na proliferação social de lembranças do passado carregadas de vieses que precisam ser estudados, compreendidos e esclarecidos, quando necessário.
De maneira mais direta, o autor entende que o debate público, político e as formas de convivência social da contemporaneidade são carregados de marcas de memória. Ou seja, uma festa, um discurso político, uma obra cultural, um grupo social carregam dentro de si uma dimensão de memória que mesmo que não seja explícita, exerce um papel importante na definição da ação que será realizada nesses lugares.
Um indivíduo ou um grupo, ao agir no mundo, posiciona-se em relação a uma lembrança cultivada sobre o passado. Essa lembrança nunca é um elemento inerte, mas sim um vetor importante e até mesmo definidor, em alguns casos.
Ao mesmo tempo, o autor reforça que outra marca do nosso momento histórico está em um medo generalizado de se perder contato com essa referência ao passado. Portanto, na vida social, construímos diversos “lugares de memória”, monumentos que nos remetem ao passado e permitem atribuições de sentidos no presente.
Esses monumentos podem ser objetos físicos (por exemplo, uma estátua) ou formas imateriais, como atividades culturais, ritos sociais, ações de recuperação de um momento no passado (uma festa popular, uma celebração religiosa, um elemento folclórico, um discurso político, um “causo” familiar, entre outros).
Para Le Goff, estamos rodeados por versões da história e temos nosso comportamento mediado por essa memória, mesmo que muitas vezes não percebamos de maneira clara o impacto dessas ideias.
Nesse ponto, chegamos a outro tema que é fundamental para este texto:
O poder de dizer algo sobre o passado é importante e produz reflexos decisivos no presente e no futuro.
Le Goff percebe a sociedade em constante disputa sobre esses “lugares de memória” e que uma definição sobre o passado muitas vezes precisa ser desconstruída, que é preciso olhar para a memória de maneira crítica analisando as intenções e os poderes que a criaram.
Antes de aceitar a memória tal qual ela se apresenta, o autor questiona quem são os responsáveis pelas características dessa lembrança do passado e a quem interessa difundir uma determinada forma de memória neste momento:
“(…) o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores.” Jacques Le Goff, História e Memória
Em um momento da história em que a possibilidade de lembrar o passado, ou seja, saber de onde um indivíduo e/ou um grupo vem, ganhou contornos críticos, às vezes definindo a vida ou até mesmo a morte de grupos inteiros, a operação da memória ganha contornos dramáticos.
Nesse ponto, Le Goff reforça o potencial da História como ciência capaz de desvelar os procedimentos de construção de uma memória histórica, de apresentar os usos abusivos da memória e principalmente, recuperar a pluralidade de histórias presentes em uma sociedade, de maneira a construir coletivamente uma memória mais justa e plural.
Partindo dessa conclusão, gostaria de refletir sobre três filmes recentes que abordaram a relação entre História e Memória, mesmo que de maneira indireta. Cada filme a sua maneira discute a importância da recuperação da memória histórica e o embate social por trás desse tema.
A primeira obra tem como ponto central o resgate de uma história que foi negada pelo Estado brasileiro por décadas. Em 2024 chegou aos cinemas o filme Ainda Estou Aqui, baseado em um livro autobiográfico homônimo, de Marcelo Rubens Paiva.
Acompanhamos Eunice Paiva e seus filhos no momento em que o pai, Rubens Paiva, deputado cassado pelo regime militar em 1964, foi sequestrado dentro de casa pelas forças de repressão do regime, preso em um quartel militar e dado como desaparecido em circunstâncias não explicadas pelo governo ditatorial que estava no poder.

Seguimos, a partir desse momento, a luta da família por respostas de um Estado que se recusava a reconhecer violações aos direitos individuais, ao mesmo tempo em que a família precisava se reestabelecer dessa experiência traumática.
O drama familiar nesse contexto não estava apenas na indefinição do destino de um ente querido, mas também na negação das forças no poder em reconhecer responsabilidade sobre esse episódio.
Eunice Paiva precisou enfrentar o silêncio oficial que negava suas demandas, ao mesmo tempo em que lidava pessoalmente com os efeitos familiares, econômicos e psicológicos do desaparecimento de seu marido.
Com ajuda de depoimentos de outros encarcerados, delações de pessoas dentro das próprias forças de repressão, processos judiciais muitas vezes barrados pela justiça militar, assistimos a Eunice reconstruir os fios dessa memória negada, identificando a morte do seu marido como parte de um processo de violência e eliminação política muito maior e articulando uma rede de resistência e apoio na sociedade civil, que passou a pressionar e exigir a verdade sobre o episódio.
A busca pela verdade perdurou a queda do regime e resistiu também ao silenciamento do governo civil posterior. Em posse de um dossiê cada vez mais substancial, as ações de Eunice Paiva conseguiram em 1996 arrancar do Estado brasileiro o reconhecimento da morte sob tortura dentro do quartel do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI/CODI), por meio da Lei dos Desaparecidos. Todos os detalhes do processo, a identificação dos nomes envolvidos na repressão, tortura e eliminação de civis no regime militar, assim como a documentação que até então estava escondida em quartéis e em outros arquivos censurados, foram revelados durante a Comissão Nacional da Verdade (CNV), entre os anos 2011 e 2014.
Uma das tarefas empreendidas pelo cineasta Walter Salles nessa obra foi apresentar a dimensão humana dessa luta pela memória. O diretor reflete que o poder de recuperar fatos do passado traz também a possibilidade de novos significados para a vida, reforça a dignidade humana e estabelece uma justiça, mesmo que tardia, para vidas tragicamente violadas.
No ano seguinte, outro filme também abordou a memória do regime militar, mas agora em uma perspectiva ficcional. O Agente Secreto (2025) é um thriller de espionagem em que a ação acontece do ponto de vista de um professor universitário perseguido pelo regime.
Além de realizar uma prodigiosa reconstituição de época, o diretor Kleber Mendonça Filho foi brilhante em recuperar o clima de tensão e insegurança que prevalecia no período.
Armando Mendonça, personagem principal do filme (interpretado por Wagner Moura), é confrontado a todo tempo por temas relativos à memória e história local.

O filme explora diferentes camadas da memória: a afetiva (nas cenas com Dona Sebastiana), a traumática (no sobrevivente do Holocausto, Hans), a folclórica (na lenda da perna cabeluda) e, sobretudo, a memória pessoal do protagonista, que luta para recuperar os registros da história de sua mãe nos arquivos oficiais, ao mesmo tempo em que é entrevistado pela historiadora que permitirá a preservação de sua história de vida.
Usando a ditadura militar como pano de fundo, Kleber Mendonça Filho percebe que do encontro desses passados surgem os elementos que permitem a violência do presente, e também os perigos e esperanças para o futuro.
O diretor nos leva à conclusão de que não basta resgatar a memória, é preciso refletir sobre essa experiência, analisar seus significados, perceber os conflitos dessa narrativa histórica e sempre que possível, esclarecê-los.
Para finalizar, gostaria de discutir um pouco a abordagem do filme norueguês Valor Sentimental (2025). Esse drama familiar intimista acompanha a vida das irmãs Borg, Nora e Agnes após a morte recente da mãe, e o relacionamento problemático do pai Gustav com suas filhas.

A família vive em uma casa centenária em Oslo, onde diversas gerações viveram nos mesmos cômodos e deixaram sinais de sua existência, interesses e dramas pessoais. Esses sinais podem ser vistos no batente da porta com o registro do crescimento das meninas, no uso de objetos compartilhados durante décadas, nos móveis e nas relações, reais ou não, estabelecidas entre essas gerações.
Entre os temas abordados, está a história de luta da mãe de Gustav contra o regime nazista. Acompanhamos sua prisão e tortura por ações antifascistas, e vemos como a marca dessa experiência determinou de forma decisiva a vida dessa personagem e de alguma maneira também refletiu nos relacionamentos das próximas gerações através de uma memória compartilhada, mas principalmente através do não dito ou não explicado.
Esclarecer essa crise familiar exige tomar contato direto com assuntos silenciados, embora presentes em cada espaço da casa e determinantes nas relações entre os seus moradores.
Nesta obra, a dificuldade não está na negação ou ocultamento da memória, como vimos nos filmes brasileiros. A natureza dos regimes nazifascistas europeus envolvia uma precisão dos registros e preservação das ações tomadas. A dificuldade da família Borg estava em enunciar as questões silenciadas e elaborar esses conteúdos.
Considerando o contexto histórico em que os três filmes se inserem, não causa estranheza a proximidade temática e a problematização em relação ao tema da memória. Vivemos um período de emergência em relação à afirmação pública de fatos, ao mesmo tempo em que percebemos grupos de interesse se mobilizarem a favor de versões alternativas para verdades científicas há muito estabelecidas, ou mesmo ações do Estado que procuram silenciar tópicos traumáticos da história coletiva.
Para ilustrarmos com apenas um exemplo, vejamos a legislação do Estado da Flórida, nos Estados Unidos, que proibiu a discussão de temas correlatos ao impacto da escravidão nos currículos escolares e autorizou a retirada de dezenas de obras literárias das bibliotecas localizadas nas instituições de ensino.
O exemplo estadunidense não é isolado, poderíamos citar diversas outras iniciativas de censura, combate ao conhecimento científico e/ou tentativas de silenciamento por parte de governos europeus, latino-americanos e asiáticos.
Se apontarmos para um ponto aleatório do globo neste momento, identificaremos algum tipo de ameaça aos direitos fundamentais das populações. É alarmante o esforço coordenado em desqualificar e até mesmo negar a existência de pessoas, de expressões políticas, culturais, étnicas, identitárias…
A ambição pelo controle e a posse de ferramentas sofisticadas de processamento de dados permitem às elites contemporâneas estipular verdades e controlar a história como nunca antes.
Esses filmes nos lembram dos custos políticos e humanos resultantes de memórias mal elaboradas, dos custos familiares e pessoais desse processo. Humanizar essas violências a partir de histórias com as quais podemos nos identificar é uma forma de sensibilizar a audiência para uma realidade presente em nosso horizonte de maneira cada vez mais escancarada. O drama da tela é também um esforço de conscientização para a plateia observar criticamente o entorno e suas questões.