Sacrifício

A transição para o sistema de produção fabril foi extremamente traumática para os trabalhadores que vivenciaram essa mudança. Historiadores que estudam esse período descrevem que o ritmo e a intensidade do trabalho no contexto anterior ao capitalismo industrial contrastavam fortemente com a realidade de exploração imposta pelo surgimento das fábricas.

Maurice Dobb, em A Evolução do Capitalismo, aponta que no contexto do trabalho artesanal urbano, que era regido por regras claras definidas pelas antigas corporações de ofício, um trabalhador tinha à disposição 80 a 100 dias por ano de feriados religiosos. A jornada de trabalho começava com o nascer do sol e se encerrava no entardecer, com pausas programadas para refeições e descanso.
Nesse sistema, preços, salários, técnicas de fabricação, acesso ao mercado consumidor eram previamente debatidos e ajustados pelas corporações de ofício. Mesmo que o espaço das corporações não permitisse a voz da maioria das pessoas, os arranjos estabelecidos visavam criar condições para que consumidores e trabalhadores operassem em um sistema de trocas e pagamentos justos.

Com o surgimento das primeiras fábricas que utilizavam a força mecânica das máquinas a vapor, o ritmo de vida e trabalho da população mudou abruptamente. No intervalo de uma geração, passamos das condições descritas para um sistema em que a mão de obra humana se desvalorizou, e toda a produção se converteu em um meio exclusivamente voltado à busca do lucro. Os critérios de justiça e equidade na remuneração passaram a ser vistos como prejudiciais ao funcionamento saudável de operações voltadas exclusivamente para a rentabilidade.

A maior mudança vivenciada pelo trabalhador desse período estava na intensidade com que o trabalho era realizado. Como demonstra a obra do historiador E. P. Thompson, o ritmo da vida, que até então era regulado pelo ritmo biológico da natureza, passou a ser regido por uma disciplina que condicionava o trabalhador à máquina, ao relógio, a um nível de exploração nunca antes visto. Jornadas de trabalho se estendiam de 14 a 16 horas diárias, sem descanso semanal ou férias remuneradas. Um operário tinha à disposição 30 minutos para se alimentar e sofria pesados descontos salariais por atrasos ou mesmo por distrações com algo corriqueiro, como uma conversa.

A disciplina fabril envolvia também castigos físicos, humilhações públicas e até mesmo abuso sexual, já que em alguns setores, a presença feminina na linha de produção era predominante. Crianças eram empregadas nas fábricas e minas de carvão a partir dos 5 anos de idade e muitas vezes se tornavam vítimas do insalubre ambiente fabril, onde as máquinas eram dispostas sem nenhuma consideração à ergonomia e segurança do trabalhador. Acidentes de trabalho envolvendo mutilações e mortes, deformidades, poluição e outras doenças ocupacionais reduziam drasticamente a expectativa de vida. Todo esse grau de sofrimento somava-se a remunerações irrisórias, que mal permitiam a subsistência do trabalhador.


Ilustração de Henry G. Gastineau (1791-1876) mostrando o impacto de uma siderúrgica em um território

Ao mesmo tempo, a necessidade urgente que os países industrializados tinham de novas zonas de exploração de matérias-primas e mercados consumidores, levou esses países a estabelecerem violentos domínios em territórios na África, Ásia e Oceania. A miséria das condições europeias de exploração foi exportada para todo o globo, destruindo culturas e modos de vida que até então pouco tinham sofrido com o expansionismo europeu. O imperialismo mudou definitivamente a história do planeta Terra.


Charge apresentando o magnata Cecil Rhodes expandindo a presença britânica na África, 1892

Considerando esse contexto, não é de se surpreender que contemporâneos à revolução industrial se insurgissem e denunciassem tamanha injustiça. Karl Marx, em O Capital, extenso estudo sobre a natureza do sistema capitalista, publicado em 1867, definiu: “A produção capitalista (…) exige o holocausto ininterrupto de vidas dos operários, não só durante as guerras, mas também no período normal de trabalho”.

Convém analisar a metáfora que o autor usa para ilustrar a exploração capitalista no século XIX. O holocausto, citado por Marx, era uma prática dos hebreus que envolvia a oferta para o deus Yahweh de um animal (geralmente uma ovelha ou um touro) que seria consumido nas chamas em honra à divindade. Buscava-se ganhar o benefício divino, boas colheitas, o nascimento e crescimento de crianças sadias, o fim e a cura de epidemias, a vitória na guerra… Geralmente esse sacrifício envolvia uma barganha complexa, quanto maiores as benesses, maior o custo envolvido no rito expiatório, de maneira que os ganhos se equiparavam às perdas, seguia-se a lógica de que o universo sempre buscaria um equilíbrio e que as forças sobrenaturais seriam responsáveis pela manutenção da harmonia da natureza.

A intensidade e o esplendor associados a esses ritos ainda estão presentes, mesmo que de maneira subliminar, em nossa cultura. Além do termo holocausto, que mais tarde também foi associado ao genocídio da população de judeus da Europa pelos regimes nazifascistas, também podemos verificar o emprego do termo “hecatombe”, hoje associado a uma destruição de grande magnitude, mas que na antiguidade estava relacionado às oferendas aos deuses da Grécia Antiga – mais precisamente, o sacrifício de cem touros para agradar aos deuses (conforme o dicionário histórico – Le Dictionnaire des Antiquités Grecques et Romaines de Daremberg et Saglio).

Figura presente no Partenon representando uma manada de bois sendo entregue para o sacrifício

Ao mesmo tempo que o sacrifício mobilizava as pessoas pela opulência e grandiosidade, havia também uma dimensão de horror e repulsa que precisa ser considerada. É a essa dimensão que Marx recorre ao utilizar o termo holocausto. Uma boa fonte histórica que aborda essa perspectiva é o texto bíblico, especialmente a apresentação do temido culto ao deus Maloque, descrito pelos hebreus como uma abominação, por atingir a vida humana, considerada sagrada, e por ter uma preferência especial pela imolação de crianças.

Se no holocausto hebreu entregava-se um animal como oferta a Deus (embora o caso de Abraão e Isaque seja utilizado por estudiosos como indício de que a vida humana provavelmente nem sempre era preservada), os vizinhos dos hebreus costumavam praticar o sacrifício humano de maneira muito liberal, a ponto de servir de referência negativa na cultura abraâmica.

É possível fazer a crítica histórica do olhar enviesado da cultura monoteísta dos judeus em relação às práticas politeístas de seus vizinhos e rivais territoriais, basta verificar, por exemplo, que os amonitas, adoradores de Maloque, eram um povo estabelecido em Canaã, portanto rivais dos hebreus quanto à posse e uso da terra na região fértil do rio Jordão.

Outra crítica histórica relevante é que interpretar a lógica sacrificial como um ato de crueldade constitui muito mais um olhar contemporâneo sobre essas culturas do que um fato social consolidado nessas estruturas histórico sociais. Ou seja, encarar o sacrifício em uma perspectiva exclusivamente negativa é uma abordagem anacrônica.

Entretanto, para o propósito desse artigo, a representação social do horror associado à figura de Maloque é importante por construir o imaginário de um deus disposto a consumir de maneira insensível a vida de crianças e adultos. Para agradar ao deus, era necessário entregar a criança às chamas de adoração à divindade.

O horror à morte indiscriminada foi transmitido ao longo dos séculos e no momento da revolução industrial, quando Marx procurava um termo à altura do grau de violência e destruição em torno da busca desenfreada por dinheiro, encontrou nessa referência do passado semelhanças no grau de crueldade e abuso contra as vidas humanas envolvidas. A metáfora do sacrifício se tornou nesse contexto um artifício literário poderosíssimo para descrever as condições da revolução industrial.

Ilustração apresentando o olhar europeu ao culto à Maloque

Entretanto, no novo paradigma do capitalismo industrial, o sacrifício não seria mais realizado para agradar Baal, Maloque, ou qualquer outra entidade. A lógica sacrificial também deixou de buscar a harmonia com as forças da natureza. Nesse novo contexto, adorando a um novo deus – o Deus Dinheiro, a acumulação a todo custo passou efetivamente a consumir vidas, ecossistemas, territórios, culturas e a própria crença de que nada deveria ser mais sagrado que a vida humana. Em nome do lucro não haveria mais limites.

As gerações mais antigas, anteriores à revolução industrial, ainda preservavam a memória de um tempo em que o trabalho, embora rigoroso, não exigia a completa desumanização do indivíduo. Para elas, a reorganização da vida sob a lógica industrial foi um profundo choque. Ao mesmo tempo, esse horror serviu também de impulso para as novas gerações lutarem para se reconstruir formas de sociabilidade que partissem de um reconhecimento da importância da vida humana.

A partir de meados do século XIX, assiste-se a pressões constantes e crescentes dos trabalhadores contra os patrões em busca de melhorias em suas condições de vida. Entre os métodos empregados estavam ações de insubordinação à nova ordem fabril, como por exemplo na ocasião do assalto noturno a uma tecelagem no condado de York, em 1812, e da completa destruição da fábrica pelos operários insatisfeitos.

Gravura de 1812 – O Líder dos Ludistas – À frente de uma fábrica em chamas, um homem disfarçado de mulher lidera uma multidão em revolta.

Também se mobilizaram através da organização de sindicatos e associações de trabalhadores, que passaram a organizar coletivamente as demandas de classe e as estratégias de enfrentamento aos interesses da burguesia. Nesse momento, assistiu-se à organização de protestos, greves, boicotes, disputas eleitorais, ações de ilustração e educação popular, comunicação por panfletos, jornais, periódicos e conferências, além de ações diretas contra prédios, máquinas ou até mesmo indivíduos.

Organizados politicamente os trabalhadores se tornaram uma força social considerável. Em contrapartida, as classes proprietárias reagiram por meio de pressões de ordem moral, religiosa, utilizando o aparato legal, a pressão militar e, muitas vezes, a violência bruta.

A pressão dos trabalhadores e as próprias exigências de uma sociedade burguesa – como a necessidade de um ambiente previsível para os negócios – abriram espaço para o surgimento de algumas garantias fundamentais aos trabalhadores. A regulamentação do trabalho infantil, a limitação de jornada de trabalho e melhorias das condições no ambiente fabril já constam em uma das primeiras leis trabalhistas inglesas de 1802 (Peel’s Act).

A classe trabalhadora, a partir de então, lutou para que esses direitos fossem consolidados, por meio da fiscalização (que praticamente era inexistente), aprimoramento da legislação e da discussão da própria natureza da exploração do sistema capitalista. A partir de então propostas como a limitação da jornada de trabalho a oito horas diárias, o direito ao descanso semanal remunerado, a igualdade salarial entre homens e mulheres, a construção de uma legislação trabalhista abrangente com previsão de direitos fundamentais como salário mínimo, férias, liberdade sindical, se tornaram pautas fortes e conquistas consolidadas ao longo das décadas.

Fotografia de um protesto em 1886 em Chicago. Na faixa, lê-se: Trabalho ou revolta. Uma coisa ou Outra!

Cada direito trabalhista que existe hoje é resultado da luta de homens e mulheres que muitas vezes colocaram a sua vida e felicidade individual a favor dos interesses da classe trabalhadora.

Ao mesmo tempo, essa história não é apenas a narrativa de conquistas e avanços de direitos sociais. Retrocessos são frequentes e propostas desumanas são apresentadas praticamente todos os anos. Em 2023, na Coreia do Sul, uma proposta de reforma trabalhista queria aumentar a já absurda jornada de 50 horas semanais, para 69 horas! Em comunicado, a Confederação Coreana de Sindicatos apontou: “Isso tornará legal trabalhar das 9h00 à meia-noite por cinco dias seguidos. Não há consideração pela saúde e descanso dos trabalhadores”.

Os EUA, que estipulam em legislação federal que adolescentes com 14 e 15 anos podem trabalhar no máximo 3 horas no período escolar e só até às 19 horas, enfrentam uma série de judicializações de Estados que procuram “flexibilizar” esses direitos, como turnos no período da noite de 6 horas, trabalho em ambientes perigosos como frigoríficos ou demolições, e até mesmo propostas que querem autorizar adolescentes a servir álcool em bares ou trabalharem na montagem e estocagem de fogos de artifício!

A lógica do sacrifício continua forte. A dicotomia entre trabalho ou direitos pretende ser a resposta supostamente inquestionável de uma elite ansiosa por lucros intermináveis, mesmo que à custa da exploração de homens, mulheres e crianças. Os trabalhadores, por sua vez, continuam intransigentes em sua luta pelo direito à emancipação, à vida.

Manifestantes protestando pelo fim da escala 6×1 caminham na Avenida Paulista, São Paulo. Crédito: Pedro Stropasolas/Brasil de Fato (2026)


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